segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A Operação Corruptio Socialis

Honestíssimo Pontual, magistrado da Comarca de Bicão, dirigiu-se à sede da Polícia Federal e determinou a sua própria e imediata prisão pelo crime de ‘corrupção social’, da forma literal em que confessou o seu crime.

Diante da surpresa do Delegado Federal, o integérrimo juiz promoveu solene explicação: “Senhor Delegado, este servidor público que aqui se faz presente recebeu o contracheque de seus vencimentos relativos ao mês passado, e constatou que o total de rendimentos supera o limite constitucional. Sendo assim, o senhor está diante de um indivíduo que cometeu o crime de corrupção social, usufruindo de forma criminosa dos recursos públicos. Prenda-me, senhor Delegado!”.

O Delegado tentou dissuadi-lo da grave decisão: “Mas, Excelência, se o Tribunal resolveu pagar tal quantia, por certo está cumprindo a lei. Sua Excelência não tem culpa”.

Honestíssimo Pontual teve o rosto ruborizado pela vergonha e irritação: “Senhor Delegado! O senhor está insultando a minha inteligência! Se eu ficar quieto e aproveitar-me de uma lei indecorosa e imoral, serei conivente dessa política mendaz e corrupta. Declaro-me preso, senhor Delegado!”.

E assim, o juiz Honestíssimo Pontual foi conduzido à prisão temporária, por ordem expressa do próprio indiciado.

Contudo, o Delegado necessitava urgente da instauração de inquérito criminal, e para formalizar os procedimentos legais apelou ao Ministério Público. O caso foi parar nas mãos do Promotor Sisudo Rigor Extremo, baluarte das apurações de crimes contra a ordem social.

O doutor Sisudo ouviu atentamente as explanações do aturdido Delegado, o qual relatou a notitia criminis do juiz contra ele próprio. Ao término do relatório, o doutor Sisudo Rigor Extremo retirou do bolso o seu contracheque e alarmado declarou ao Delegado: “Senhor Delegado! Acabo de constatar que eu também cometi o crime de corrupção social! Ganhei mais do que o permitido na Constituição Federal!”.

O Delegado, perplexo, perguntou: “O que faremos, então, doutor Sisudo?”. O Promotor de Justiça não titubeou: “Prenda-me, também!”.

O Promotor Sisudo Rigor Extremo foi fazer companhia ao Juiz Honestíssimo Pontual na prisão. A Polícia Federal instaurou a Operação Corruptio Socialis e vem investigando os vencimentos de todos os servidores públicos. O Delegado Federal afastou-se da Operação por suspeição.  

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Umas e outras

Uma: A receita da União cresceu 14,5% em termos reais de 2008 a 2015. A despesa da União cresceu 51% no mesmo período. A diferença foi bancada com emissão de títulos da dívida pública com juros cada vez mais apetitosos. A dívida bruta subiu de R$ 1,7 trilhão em 2008 para R$ 3,9 trilhão em 2015. E a rolagem da dívida ficou mais difícil, porque o selo de bom pagador foi eliminado. Mal comparando: uma família que gasta mais do que ganha e vive dos créditos dos cartões e dos consignados. Até que um dia o seu nome é negativado no Serasa.

E ainda perguntam qual o motivo da crise financeira atual.

Outra: Uma amiga próxima da Presidenta (?) da Coreia do Sul aproveitou-se de sua amizade para fazer tráfico de influência com empresas coreanas e estrangeiras. Envolvida no escândalo, pois a amiga usava o seu nome nos trambiques, a Presidente, Senhora Park Geun-hye, pediu ao Parlamento para decidir como e em que condições ela deva deixar o poder. Parte do Parlamento percebeu que a proposta era uma maneira de evitar o pedido de impeachment, aparentemente inevitável. Os parlamentares pediram a ela que o melhor seria renunciar com dignidade.

Milhares de coreanos foram às ruas gritando “FORA PARK!”. E até agora ninguém gritou “GOLPE!”.

Mais uma: Certa vez, eu viajava de Curitiba para o Rio de Janeiro, quando um temporal desabou sobre a cidade dos cariocas. Impedido de pousar, a aeronave ficou dando voltas nas proximidades. Até o momento em que o comandante do avião avisou aos passageiros, mais ou menos nessas palavras: “Desculpe, senhores passageiros, mas estamos seguindo em direção ao aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. Temos combustível suficiente para chegar até a capital mineira, além de mais trinta minutos em combustível de folga. Como não sabemos quando o Galeão vai reabrir, não vamos correr risco de perder a reserva que temos”.

Os passageiros entenderam perfeitamente. Seria um absurdo o comandante arriscar, dando voltas ao redor do aeroporto, e não ter combustível para chegar até ao mais próximo.

Mais outra:        #forçachape!

sábado, 26 de novembro de 2016

O marketing enfadonho

Na Cafeteria

Dirijo-me ao caixa:

- Bom dia! Um café expresso, por favor.

- O senhor é cliente fidelidade?

- Hem? Não sei... Eu só quero um café expresso.

- Diz o seu CPF para ver se o senhor é cliente fidelidade.

- Moça, eu não vou lhe dar o número do meu CPF. Eu só quero um café expresso!

- Se o senhor não der o número do CPF, não poderei dizer se o senhor é cliente fidelidade!

- A senhora poderia me dizer, por favor, qual é o preço de um café expresso?

- (a contragosto) R$ 6,00.

- Aqui está o dinheiro.

- O senhor tem R$ 1,00 para facilitar o troco?

- Não!

- Está aqui a nota. O senhor pode se dirigir ao atendimento.

Dirijo-me ao atendimento:

- Boa tarde! Um café expresso, por favor (coloquei a nota no balcão).

- O senhor é cliente fidelidade?

- Não senhora! Um café, por favor!

- O senhor não quer se cadastrar como cliente fidelidade? Basta preencher...

- Moça! Eu não quero ser cliente fidelidade! Eu só quero tomar um bendito cafezinho!

- Qual o acompanhamento?

- Não quero acompanhamento! Só o café!

- O senhor pode se sentar numa mesinha que nós levaremos o café.

Na mesinha:

- Boa noite! Pode me trazer o meu café expresso, por favor.

- O senhor é cliente fidelidade?