segunda-feira, 26 de maio de 2014

Notícias (futuristas) dos Jornais

Morre o último fumante do mundo

Ilhas de Martim Vaz, Brasil – Foi encontrado nesta semana o corpo de Robert Tall, mais conhecido por “O Fumante”, por ter sido o último fumante do mundo. O seu corpo foi encontrado na gruta em que vivia isolado na Ilha Norte do arquipélago de Martim Vaz, pequeno conjunto de rochedos de origem vulcânica, localizado a cerca de 1.200 quilômetros do litoral brasileiro.


Robert Tall ficou famoso ao ingressar com ação de inconstitucionalidade na suprema corte brasileira, contra a lei de efeito mundial que baniu o tabagismo da humanidade. O Fumante alegou na Corte o seu direito de fumar, defendido pelo famoso Advogado, Virgulino Borboleta, especialista em art. 5º da Constituição Federal do Brasil. A Suprema Corte decidiu que Robert Tall tinha, de fato, direito de fumar, porém, desde que não viesse a provocar danos à saúde da coletividade.

Diante da decisão, o Fumante resolveu isolar-se e conseguiu permissão para viver no deserto arquipélago de Martim Vaz, onde cultivava a sua própria produção de tabaco numa horta hidropônica por ele construída no meio dos rochedos.

A permissão dada ao Fumante de viver na ilha gerou grandes protestos na época. A Associação de Proteção das Aves Marinhas – APAM –, liderada pela ambientalista e dançarina Dorotéia Melancia, promoveu manifestações em defesa das aves que vivem no arquipélago, que poderiam correr risco de saúde ao respirar a fumaça dos cigarros de Robert Tall. A Sociedade Amor às Baleias também provocou graves manifestações de ruas, porque as baleias costumam ser vistas próximas das Ilhas Martim Vaz e sofrerem incômodos com o cheiro do cigarro. Durante os protestos, dezenas de lojas foram saqueadas e vinte ônibus foram queimados.

Quando Robert Tall decidiu viver nas ilhas remotas, as empresas multinacionais fabricantes de cigarros de maconha, legalmente permitidos e difundidos em todo o mundo como um hábito saudável e politicamente correto, tentaram convencer o Fumante para trocar o tabaco pela canabis. Ele rejeitou qualquer tentativa de mudança, dizendo que não suportava maconha, afirmação que deixou furiosas as indústrias de Cigarros Canabis e o ameaçaram de processá-lo por danos morais.

Nesta semana, a tripulação do navio da Marinha do Brasil, que leva mensalmente suprimentos para Robert Tall, estranhou não encontrá-lo no cais. Dois marinheiros, vestidos com roupas especiais e com máscara contra gases subiram os rochedos até a gruta onde vivia o Fumante, encontrando-o morto deitado na rede de dormir. O médico de bordo considerou sua morte por causas naturais e pelo uso constante do fumo.

Robert Tal fumava desde os quinze anos de idade. Morreu com noventa e cinco anos e o seu corpo será cremado e suas cinzas serão lacradas em cofre de chumbo e enterradas num poço de trinta e cinco metros de profundidade.


sábado, 17 de maio de 2014

A Empresa


Traquino Bigorante era frequentador assíduo da igreja e gostava de prestar testemunho de fé quando o pastor convidava os fiéis a fazê-lo. Traquino tinha o dom da palavra e da interpretação, um artista nato, a dosar o tom de voz, o uso adequado dos gestos, a gritar quando devia, a dramatizar as passagens, a surpreender o público.

Uma das atribuições dos pastores da igreja era a de atrair novos talentos, fiéis que se destacavam na participação dos cultos. E assim, Traquino Bigorante foi convidado a trabalhar na instituição, a começar como trainee na sede paroquial da igreja, uma monumental sede encravada no interior do país. Lá ficou durante um ano, sendo treinado para dirigir uma igreja, recebendo completo doutrinamento sobre os conceitos dogmáticos e a forma correta de angariar fiéis. Foi aprovado com louvor.

O pastor-chefe do Centro de Treinamento explicou ao recém-formado seus direitos e obrigações, a perceber um salário fixo de R$ 5 mil e mais adicional de produtividade. Ele receberia, inicialmente, uma modesta igreja em uma pequena cidade, cujo potencial econômico estabelecia uma meta de receita de R$ 20 mil por mês, conforme os estudos do setor de previsões econômicas da igreja. Se viesse a superar a meta de R$ 20 mil, a metade do excedente seria dele e a outra metade da igreja.

No Policy and Procedures Manual da igreja, um calhamaço de trezentas páginas, que o clérigo apelidava de ‘bíblia’, continha uma ordem expressa: o dinheiro recolhido dos fiéis não podia de forma alguma ser depositado em conta bancária. E nem trocado. O dinheiro recebido teria de ser o mesmo a ser entregue aos coletores credenciados.

Ao receber o diploma de conclusão do treinamento, o diretor do Centro de Treinamento foi claro: “Entenda sempre que nós somos uma empresa! O nosso portfólio de venda insere produtos como a fé, a esperança e a ilusão. Não vendemos promessas para depois da morte, como certas concorrentes fazem, mas para a vida atual! Os nossos clientes querem melhorias imediatas e não para depois que morrerem! Por isso, um pastor não pode ficar muito tempo na mesma igreja, porque pode ser desacreditado caso os milagres não aconteçam”. E concluiu: “Assim, os pastores que se destacarem no cumprimento de suas metas de arrecadação, precisam de mobilidade e aceitar as ordens de transferências paroquiais”.

Com essas instruções sedimentadas no cérebro, Traquino Bigorante mudou-se para a pequena cidade e iniciou os seus trabalhos. Em pouco tempo, já superava a meta e recebia a metade do excedente. Todos os meses ele recebia os sisudos coletores e despejava na mesa as sacolas de dinheiro para que eles contassem, registrassem nos livros e lhe pagassem a sua parte.

Acontece que Traquino era casado e a sua mulher queria comprar uma casa e ter filhos. O jovem pastor resolveu, então, comentar o assunto com o seu chefe e pedir um empréstimo. O pedido preocupou o chefe, levando o problema à diretoria que, incontinenti, deu ordens para Traquino fazer uma vasectomia às escondidas da esposa, pois família numerosa era algo vedado na ‘bíblia’, isto é, no Policy and Procedures Manual. Em relação ao empréstimo, a diretoria deixou claro ao pastor que a “instituição não era casa de caridade para ficar ajudando os outros”.

Diante da recusa, Traquino resolveu diminuir aos poucos o excedente, enfiando no bolso pequenas somas de dinheiro a cada mês. Ele queria tornar realidade o desejo da esposa. Até que foi pego. Ele não sabia que a igreja era visitada de vez em quando pelos irmãos chamados de espiões, que colocavam dinheiro marcado nas sacolas. Na primeira contagem, verificaram que o dinheiro depositado pelos espiões desaparecera.

Traquino Bigorante foi demitido sumariamente. Tentou vaga em outra igreja, mas o seu currículo estava irremediavelmente manchado. Confessou à mulher a vasectomia que fizera e ela, amargurada, o abandonou. Atualmente, Traquino é taxista e vive sozinho em uma casinha alugada. 


PS – Esta história é verídica, mas não dizer com isso que todas as igrejas funcionam desse jeito.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

As agruras do Mecânico

Da série: Manicômio Fiscal

Um Mecânico tinha uma firma estabelecida no Município de Maquiavel, mas atendia clientes de toda a região banhada pelo rio Matapau. Todas as manhãs ele saía da oficina de Maquiavel e ia consertar, ou dar manutenção, nos tratores dos clientes dos municípios vizinhos.

 Certa vez, encontrou um Fiscal na sede de um cliente, na cidade de Rogai Por Nós, localizada nas margens do Matapau. O Fiscal aproveitou a oportunidade e entregou-lhe uma intimação para recolher o ISS de seus serviços. O Mecânico explicou que pagava o imposto em Maquiavel, onde tinha estabelecimento. O Fiscal respondeu que o imposto relativo à receita obtida com o cliente de Rogai Por Nós pertencia àquele Município e lá deveria ser recolhido.

O Mecânico tentou convencer o Fiscal com a leitura da lei federal: “Veja o senhor que aqui diz que o ISS deve ser recolhido no estabelecimento prestador”. O Fiscal respondeu: “Isso mesmo! Estabelecimento prestador é aqui, na empresa do seu cliente”. O Mecânico discordou: “Não! Estabelecimento prestador é a minha oficina, localizada em Maquiavel!”. O Fiscal intransigente: “Não senhor! Estabelecimento prestador é aquele onde o senhor presta serviços! E neste caso, o senhor está prestando serviços em Rogai Por Nós”.

O Mecânico argumentou: “Meu amigo, eu emito nota fiscal autorizada pelo Município de Maquiavel. Se pagar ISS aqui eu terei de pagar duas vezes!”. O Fiscal deu um sorriso maroto: “Não precisa pagar duas vezes. Nós emitimos uma nota fiscal avulsa e o senhor recolhe o imposto somente aqui em Rogai Por Nós. Não precisa incluir esse serviço na nota fiscal de Maquiavel”.

“Eu não acho correta essa forma de pagar o imposto. Além disso, têm os tributos federais”, disse o Mecânico. O Fiscal respondeu: “Ora, faz duas guias dos tributos federais; uma recolhe aqui e outra recolhe em Maquiavel”.

Ameaçado de ser autuado e multado, o Mecânico foi obrigado a aceitar a imposição do Fiscal. Ao receber a nota fiscal avulsa, comentou:: “Eu presto serviços para clientes de diversos Municípios. Espero que essa moda não se espalhe”.

E continuou viagem. Ao chegar à sede de um cliente do Município de Escafedeu, deu de cara com um Fiscal escafedense...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Hasta la vista, baby


A diretoria estava reunida e nervosa, todos sentados na grande sala de reuniões, roendo unha e mastigando ponta de caneta, todos aguardando a chegada do grande chefe, o Presidente da empresa, Sr. William Portão, cuja presença já era uma grande novidade se na empresa ele não colocava os pés há muitos anos.
Todos conheciam o motivo da presença do grande chefe: a queda brutal dos lucros da empresa! E, por certo, ele vinha para devorar o fígado da diretoria e cada um dos diretores pensava em como jogar a culpa nos outros e tentar salvar-se.
William Portão entrou na sala sem cumprimentar ninguém, estava rubro de raiva e do sol de sua ilha particular na Polinésia. Sentou-se na poltrona de cabeceira e com os dois braços estendidos na enorme mesa de mogno brasileiro falou em sussurro e de olhos voltados para a mesa: “que porra de lucro é este?”. Os mais distantes tiveram dificuldade de ouvir, mas entenderam perfeitamente o sentido. E William Portão, agora olhando para o alto, repetiu gritando: “QUE PORRA DE LUCRO É ESTE?”.
O Vice-Presidente, cargo mais alto depois do Presidente, achou-se na obrigação de justificar, e gagejando respondeu: “Não tem mais ninguém para comprar o XP”. William Portão o encarou e perguntou rispidamente: “Você quer me dizer que já vendemos o XP pra todo mundo?”. O Diretor Comercial resolveu se meter na conversa: “Acabamos de vender o XP para os índios ianomânis, eram os últimos clientes em potencial que ainda havia”.
O Presidente balançou a cabeça e vociferou: “Seus idiotas! Se o produto já foi vendido pra todo mundo, por que os imbecis aqui presentes não lançaram outro para substituí-lo?”. Os diretores se remexeram nas cadeiras e ninguém teve coragem de responder. Um minuto de silêncio que pareceu uma eternidade, até que o diretor de desenvolvimento, um sujeito magrelo e de óculos, tomou a coragem de responder: “O problema, Sr. Portão, é que o XP é muito bom e o substituto que desenvolvemos é uma merda”.
“E daí, porra!”, gritou o Sr. Portão. “Mete um nome nesse novo e a propaganda faz o resto!”. O Vice-Presidente comentou com medo: “Já tem nome, é Vista”. William Portão fuzilou com os olhos o Vice-Presidente: “VISTA? Que porra de nome é este?”. O diretor de desenvolvimento tomou coragem: “Este nome foi um apelido, significa que está longe, muito longe do XP, tão longe que a vista não alcança”.
William Portão deu um murro na mesa: “SEUS IDIOTAS! E vocês ainda brincam com essa merda! Bota outro nome, bota W7, W8, qualquer porra, mas tire o XP de circulação!”.
O diretor de desenvolvimento era o mais corajoso: “Mas, Sr. Portão, o XP foi a melhor coisa que fizemos, nada o supera”. O Presidente estava furioso: “E daí seu babaca? Nós já dominamos o mercado! Qualquer merda que lançarmos vai vender, que se dane o XP e a sua qualidade! Ele já era! Já teve o seu ciclo! Precisamos inventar outra coisa para faturar!”.
E assim, o XP foi banido. E vieram outros sistemas, o W7, o W8 e muitas outras janelas virão, cada qual com o seu ciclo de vida, mas, a diretoria aprendeu a lição: nenhum sistema poderá viver tanto tempo quanto o XP.