quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Fernandinho

Na foto, Fernandinho à esquerda, de camisa azul

Fernandinho foi embora e o mundo ficou assim, meio vazio, vamos dizer, mais chato. Ele era o tipo de pessoa que fazia falta, sua ausência era sempre notada: “Cadê o Fernandinho?”. Quando chegava, o cenário se iluminava, uma espécie de condutor de energia, o ambiente se energizava. Fernandinho era energético, trazia uma boa luz, o diodo emissor de luz. Fernandinho era a LED dos nossos encontros. Sem ele, tudo fica mais apagado, sem muito sentido.

E ele era assim naturalmente, sem prepotência ou banca de artista. O seu sorriso contagiava, pegava a todos, como se fosse um vírus da felicidade. Os aborrecimentos se afastavam, as tristezas fugiam e iam pedir asilo em outros rincões.

E lá vinha ele mancando sobre a prótese de sua perna imaginária. Apesar da deficiência, andava rápido, com os braços estendidos e sempre trazendo uma novidade divertida. Olhava pra mim e pedia sorridente: “Conta a piada do espanador!”. Ele adorava a piada do espanador.

Fernandinho foi bancário, radialista e propagandista. E tudo fez com a sua costumeira energia esfuziante. Radicou-se em Belo Horizonte, mas retornou à Petrópolis, sua terra natal. Sem nada dizer, talvez previsse o fim precoce. Morreu na terra em que nasceu.

Fui visitá-lo no fim da vida. Franzino, caidinho, olhou-me e esboçou aquele sorriso cintilante que era só dele. Aproximei-me o máximo para ouvir os seus sussurros. Com muito esforço, ele disse: “Conta a piada do espanador”. Respondi: “A piada do espanador exige muita movimentação. Vou contar a piada da lógica”. Ele concordou com os olhos. Contei a piada da lógica, ele abriu um sorriso e depois dormiu.

Foi a última vez que vi Fernandinho. Para quem acredita, ele deve estar energizando o Paraíso e tornando mais alegre as reuniões dos anjos e querubins. São Pedro deve estar perguntando: “Cadê Fernandinho?”.
Estou com inveja de São Pedro. 

3 comentários:

  1. Queria dizer alguma coisa que prestasse, embora eu seja a primeira a ser contra esse tipo de homenagem nas mídias sociais, já que a pessoa não está mais aqui. Mas felizmente meu sogro me emprestou as palavras dele.
    Também me lembro dele pedindo para contar a piada do espanador, Roberto...
    E embora eu saiba o quanto essa passagem é importante para nós, eu não consigo deixar de lamentar a sua perda.
    Não tive coragem de vê-lo doente, e lamento imensamente ter registrado em minha memória a sua imagem sem vida. E uma das coisas que mais me dói é saber que Heitor e Henrique não conhecerão as piadinhas do inimigos do orégano, entre tantas outras coisas divertidas que ele dizia.
    10 anos na família do Peter me trouxeram muitas coisas boas, entre elas a convivência com tios e primos que nem eram de fatos parentes meus, mas que enriqueceram a minha vida adulta.

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  2. Maravilha, Roberto! Que texto lindo! Presenciei essa última visita e também momentos maravilhosos ao lado dessa pessoa única. Assino embaixo.

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  3. Lindo texto Roberto, obrigado por tão belas palavras. Abraços.

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